My Golden Dress | Ontem fui eu, hoje és tu... E amanhã? - CHEGA!
Ao contrário do que eu sempre achei, ninguém, mesmo ninguém está livre de um agressor nas suas vidas. Hoje em dia sabemos, sentimos, vivemos agressões das mais variadas formas mas em todas elas raramente reconhecemos o agressor logo à partida. Esse foi o meu caso. Sempre fui a típica mulher que pensa que só acontece aos outros... Estava tão enganada.
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Ontem fui eu, hoje és tu… E amanhã? – CHEGA!

Num dia como o de hoje, Dia Internacional da Mulher e depois de ontem termos vivido um dia de Luto Nacional pelas (já) 12 vítimas mortais da violência doméstica em Portugal desde o início do ano, resolvi assinalar esta data com um post diferente do habitual nesta ocasião.

Costumo ser sempre uma pessoa positiva que acredita na mudança e na nova geração, mas a verdade é que a realidade me fez sentir algo bem diferente e por isso hoje conto-vos a minha história…

 

Eu também fui vítima de violência no namoro.

 

Ao contrário do que eu sempre achei, ninguém, mesmo ninguém está livre de um agressor nas suas vidas. Hoje em dia sabemos, sentimos, vivemos agressões das mais variadas formas mas em todas elas raramente reconhecemos o agressor logo à partida. Esse foi o meu caso. Sempre fui a típica mulher que pensa que só acontece aos outros… Estava tão enganada.

Ele era 2 ou 3 anos mais velho do que eu, filho dos papás, fazia a vida que queria, como queria e nada lhe corria mal.

Basicamente tudo na vida dele era (ou aparentava ser) um mar de rosas. Lembro-me que me cativou pela atenção, cuidado e conforto que me transmitia. Era atento a tudo, qualquer necessidade, sempre surpreendente e cativante a todos os níveis… Mas aos poucos, com o passar do tempo, fui percebendo que toda esta postura, esta forma de ser escondia algo.

A primeira vez foi verbal, apanhou-me completamente desprevenida.

Já estávamos juntos há algum tempo e tudo corria bem até que fui a uma gala de Natal actuar, num dos melhores hotéis da cidade do Porto e por isso vesti-me a rigor. Longe estava eu de saber que o meu longo, lindo e decotado vestido ia despertar no meu namorado a pior das reações.

“Pareces uma p*ta! Já viste bem essas mamas todas de fora? Que grande porca!”

 

Esta foi uma entre tantas frases que ouvi, em silêncio, por telefone sem saber bem o que dizer ou fazer… Tentei defender-me, dizendo que o vestido era lindo, me ficava bem, todos tinham gostado (incluindo os meus pais) e que eu era livre de usar o que quisesse, mas nada fez abrandar as violentas e insultuosas palavras contra mim.

Nunca ninguém tinha sido tão cruel comigo como ele foi naquele momento… Por causa de um vestido.

Claro que nunca pensei que este fosse apenas o primeiro de tantos outros episódios de insultos mas hoje vejo que era tudo tão previsível. Na cabeça dele, eu era dele… E cada vez que a situação saía do seu controlo, ele tinha que me deitar abaixo de alguma forma, de me ‘dominar’ e assim eu voltava a ficar debaixo da sua asa.

E assim foi durante tempo bastante, nas mais diversas ocasiões…

Estava a viver tempos difíceis na minha vida a todos os níveis: Falta de amor próprio, problemas com a minha mãe, a carreira não tomava o rumo que eu desejava e o “namoro” era algo estranho entre o refúgio e uma pressão extra na minha vida.

Sentia-me tão confusa e perdida, mesmo com grandes amigos do meu lado.

O meu melhor amigo Fábio alertou-me muitas vezes para esta relação que se tornava mais  doentia a cada dia que passava e hoje só tenho pena de não lhe ter dado ouvidos mais cedo porque a história começou a ficar feia…

 

Era uma quarta-feira, tinha feito o casting para o personagem ‘Kássia Bettencourt’ na novela Windeck na segunda-feira.

O telefone tocou, era a minha agente com a notícia fresquinha para me dar: Tinha que fazer as malas porque ia para Lisboa viver e gravar a Windeck.

 

Fiquei tão feliz.

Estávamos os dois juntos no carro dele, à porta de casa dele numa das zonas mais movimentadas de Matosinhos ao final do dia. Quando lhe dei a notícia, radiante da vida por finalmente ter a oportunidade por que lutava há tanto tempo:

 

“Sai do meu carro, já!” – Foi tudo o que ele disse, cheio de ódio.

 

Saí do carro incrédula e o cheia de medo. Medo por ele (ainda por cima) que conduziu feito um louco, passou sinais vermelhos a uma velocidade estúpida … Desapareceu durante o resto do dia. Andei com o meu pai, super preocupada à procura dele por toda a cidade e nada. Percebi que o meu pai apenas me acompanhou porque percebeu que eu estava genuinamente preocupada e se havia alguém que me podia ajudar era ele. Além disso, o meu pai tinha um amigo agressor: Ele já tinha reconhecido no meu namorado as atitudes padrão e preparava-se para falar comigo.

Quando voltamos para casa, ainda sem notícias dele, o meu pai fez o que qualquer bom pai faria.

Sentou-me para conversar e disse-me que estava na altura de eu ver e perceber quem era afinal aquela pessoa a quem eu chamava de namorado. Pediu-me pela sua vida que nunca o deixasse magoar-me.

 

Mesmo com todos os indícios, eu descansei o meu pai dizendo para não se preocupar:

Ele não era assim.

 

Ele tinha reagido daquela forma porque tinha medo de me perder, só isso… Como se a culpa ainda fosse minha, por ter uma profissão que o deixava assim…

Vim para Lisboa, vivia, a  princípio, na casa da minha tia, perto dos estúdios, e sempre me preocupei em mantê-lo dentro do meu novo mundo. Ele vinha muitas vezes para cá, conheceu todos os meus colegas, estava incluído em tudo.

Ainda assim, a insegurança, os ciúmes falaram mais alto e, dentro da casa da minha tia, tentou bater-me pela primeira vez.

 

Gelei. Não sabia o que fazer.

Nunca achei que ele fosse capaz de me bater mas a verdade é que naquele exato momento o tinha à minha frente, pronto para o fazer.

 

Fiz-lhe frente: Disse-lhe que me podia bater mas não iria sair daquela casa a rir-se de mim.

 

Depois disso, perdoei quando chorou e jurou estar arrependido…

Até acontecer a segunda vez… E a terceira…

Chegamos ao ponto de um dos meus colegas da novela, um dos mais velhos e amigo, ter ouvido no seu quarto (quando já vivia no hotel com todo o elenco) os insultos e ameaças , e ter entrado pelo meu quarto adentro para o ameaçar de volta.

Ao fim de tantos episódios, pedidos de desculpa, choro e reincidências … Acordei.

 

Ele não gostava de mim.

Aquela “relação” era uma doença. Estava na altura de pôr um fim naquela história

 

Foi preciso muito tempo (tempo demais), muita auto-estima e coragem para o fazer, mas terminei aquela relação. Não foi fácil, ainda tivemos uns episódios doentios pelo meio mas libertei-me desta pessoa.

Este episódio da minha vida não me impede de hoje ter uma família e um relacionamento sólido porque aprendi a valorizar-me mas o mesmo não acontece com outras meninas/mulheres.

Ser Mulher não é fácil mas não porque a sociedade não nos protege.

Muitas das vezes não nos protegemos a nós mesmas.

Reparem: Quantas vezes me alertaram? Muitas vezes, várias pessoas… No entanto, nada me fez repensar a minha relação a não ser eu mesma, já no limite.

É urgente educar, sensibilizar, empoderar Mulheres neste sentido.

 

Sendo mãe de uma menina, fico preocupadíssima quando vejo o estado da nossa sociedade. Cresce em Portugal, como nunca antes visto, o número de mortes em mulheres por violência no namoro ou doméstica. Crimes grotescos: Mulheres Sufocadas, espancadas durante a gravidez, decapitadas… Por ciúme, por raiva momentânea, porque sim.

Chega! Se a justiça não funciona (dava assunto para  mais um post gigante), eduquemos as nossas filhas e filhos para o respeito pelo outro nos relacionamentos. Está na hora.

 

Não deixemos que as nossas filhas sejam as vítimas de amanhã.

Um beijinho,

S

 

 

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